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Muito além do prato: comida, desperdício e cuidado com a natureza

há 3 dias
8 min de leitura

Comida não nasce no supermercado.

Antes de chegar à nossa mesa, cada alimento percorre um caminho que envolve solo, água, sementes, biodiversidade, energia, trabalho humano, transporte e recursos financeiros. Quando uma comida é desperdiçada, portanto, não perdemos apenas o alimento: perdemos também parte de tudo aquilo que foi necessário para produzi-lo e fazê-lo chegar até nós.

O desperdício acontece ao longo de toda a cadeia alimentar: da produção e colheita ao transporte, armazenamento, indústria, comércio, serviços de alimentação e, finalmente, dentro das nossas casas.

Mas qual é a dimensão desse problema? E o que ele tem a ver com a nossa relação com a natureza?


🌎 MUNDO: mais de 1 bilhão de toneladas desperdiçadas


Segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), em 2022 foram desperdiçadas 1,05 bilhão de toneladas de alimentos no mundo, o equivalente a aproximadamente um quinto dos alimentos disponíveis aos consumidores. [1]

O dado é ainda mais impressionante quando observamos os domicílios: 60% desse desperdício aconteceu nas casas, correspondendo a cerca de 631 milhões de toneladas. Os serviços de alimentação responderam por 28% e o varejo por 12%. [1]

Isso significa que, todos os dias, mais de 1 bilhão de refeições são desperdiçadas nos domicílios do mundo. [2]

O problema ultrapassa a questão econômica. O desperdício de alimentos também representa desperdício de água, terras agrícolas, energia e trabalho e contribui para a crise climática. Segundo o PNUMA, as perdas e o desperdício de alimentos estão associados a aproximadamente 8% a 10% das emissões globais de gases de efeito estufa e geram um custo econômico estimado em cerca de US$ 1 trilhão por ano. [2]

Por isso, reduzir o desperdício de alimentos é também uma estratégia de ação climática e de preservação dos recursos naturais.


📊 BRASIL: 55,4 milhões de toneladas estimadas


E no Brasil?

O país produz cerca de 161,3 milhões de toneladas de alimentos por ano. Uma estimativa reunida pela Integration Consulting em parceria com o Pacto Contra a Fome, a partir do “Relatório Diagnóstico sobre a Fome e o Desperdício de Alimentos no Brasil”, aponta que 55,4 milhões de toneladas são desperdiçadas anualmente, desde o campo até a casa do consumidor. [3]

É importante, porém, fazer uma ressalva: 55,4 milhões de toneladas é uma estimativa, e não uma medição oficial nacional. O próprio Pacto Contra a Fome destaca que o Brasil ainda não dispõe de uma metodologia oficial e integrada capaz de medir o desperdício em todos os elos da cadeia alimentar. A estimativa está distribuída da seguinte maneira [3]:


Infográfico: Distribuição das perdas e do desperdício de alimentos ao longo da cadeia de abastecimento (total de 55,4 milhões de toneladas/ano). A maior parte das perdas (86,5%) ocorre antes de o alimento chegar ao consumidor final. Fonte: adaptado de [3]. 




Os números mostram que uma parcela muito significativa do desperdício ocorre antes mesmo de o alimento chegar ao consumidor.

Entre os alimentos mais desperdiçados estão frutas, hortaliças, tubérculos e laticínios, que, juntos, correspondem a cerca de 45 milhões de toneladas de desperdício por ano, segundo o Pacto Contra a Fome. [4]

O desperdício também está relacionado a diferentes fatores ao longo da cadeia: problemas climáticos, pragas, condições de transporte e armazenamento, falhas logísticas, manuseio inadequado, padrões de aparência e falta de planejamento [4].

🌱 E O RIO GRANDE DO SUL?


Quando chegamos ao Rio Grande do Sul, encontramos outro desafio: não há, até o momento, uma estimativa estadual integrada de desperdício de alimentos que possa ser comparada diretamente aos números nacionais e mundiais.

Isso não significa que o problema não exista. Significa que ainda precisamos medir melhor para compreender sua dimensão.

Também é importante não confundir desperdício de alimentos com resíduos orgânicos.

Restos de alimentos são uma parte dos resíduos orgânicos, mas essa categoria também pode incluir materiais como resíduos de poda e outros componentes biodegradáveis. Portanto, o volume total de resíduos orgânicos de um município ou Estado não pode ser utilizado automaticamente como medida de desperdício alimentar.

A Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura do Rio Grande do Sul (SEMA/RS) desenvolve ações relacionadas à gestão, reciclagem e valorização dos resíduos orgânicos. Entre as iniciativas recentes está o “Relatório Técnico de Levantamento da Capacidade Instalada de Reciclagem de Resíduos Orgânicos Urbanos no Rio Grande do Sul”, publicado em 2026. [5]

Essas ações são importantes porque ajudam a ampliar a discussão sobre o destino dos resíduos e sobre a necessidade de fortalecer a economia circular.

Ao mesmo tempo, permanece o desafio de produzir mais dados específicos sobre desperdício de alimentos, utilizando metodologias padronizadas que permitam identificar onde, por que e em que quantidade os alimentos são desperdiçados no Estado.

Afinal, aquilo que não conseguimos medir adequadamente também se torna mais difícil de combater.

🌎 MEIO AMBIENTE E ALIMENTAÇÃO: TUDO ESTÁ CONECTADO


Quando jogamos comida fora, não estamos descartando apenas aquilo que está no prato.

Estamos descartando também a água utilizada no cultivo, a terra ocupada pela produção, a energia utilizada no processamento e na refrigeração, o combustível do transporte, as embalagens, o trabalho de agricultores e de tantos outros profissionais e os recursos investidos para que aquele alimento chegasse até nós.

Por isso, meio ambiente e alimentação não são assuntos separados.

A maneira como produzimos, compramos, preparamos, consumimos e descartamos os alimentos interfere diretamente no uso dos recursos naturais e nos impactos que causamos no planeta. Da mesma forma, as condições ambientais (a qualidade do solo, a disponibilidade de água, a biodiversidade e o clima) determinam, em grande parte, aquilo que podemos produzir e comer.

Cuidar da alimentação é também cuidar do ambiente que torna essa alimentação possível.

Se cada alimento carrega uma história de natureza, trabalho e recursos, como a nossa relação com a comida pode influenciar a nossa relação com a natureza?


🌿 A NOSSA RELAÇÃO COM A NATUREZA TAMBÉM PASSA PELA ALIMENTAÇÃO


A alimentação pode ser uma das formas mais cotidianas de nos relacionarmos com a natureza. Afinal, dependemos dela para obter aquilo que comemos.

No entanto, os sistemas alimentares modernos podem tornar essa relação menos visível. Quando o alimento chega à nossa mesa já processado, embalado e distante de sua origem, pode ser fácil esquecer que, antes de ser um produto, ele foi parte de um sistema natural e social.

Pesquisas recentes começam a investigar justamente essa relação.

Um estudo publicado em 2026 na revista Social Science & Medicine, com abordagem quantitativa e qualitativa, encontrou associações positivas entre interação com a natureza, qualidade da alimentação e comportamentos alimentares mais sustentáveis. Os autores também identificaram que a sensação de conexão com a natureza pode ajudar a explicar essas relações. [6]

Nas entrevistas realizadas no estudo, os participantes relataram, entre outros aspectos, relações entre estar na natureza, cuidar da saúde, consumir frutas e verduras e desenvolver maior consciência sobre o sistema alimentar. [6]

Outro estudo, publicado em 2026 na revista Sustainable Development, investigou de maneira mais específica como diferentes práticas relacionadas à alimentação podem influenciar a associação mental entre comida e natureza. Foram realizados três estudos, incluindo dois experimentos. [7]

O resultado mais consistente apareceu em relação ao cultivo de alimentos: envolver-se com a produção de alimentos, ou mesmo ser exposto a informações sobre esse processo,  fortaleceu a associação entre comida e natureza e apresentou relação com resultados mais pró-ambientais. [7]

Isso é importante porque nos permite fazer uma afirmação mais cuidadosa: aproximar as pessoas da origem dos alimentos pode fortalecer a percepção de que nossa alimentação depende da natureza.

No Brasil, um estudo publicado na revista Ciência & Saúde Coletiva analisou 146 profissionais da atenção primária à saúde e encontrou associação entre a conexão com a natureza e motivos relacionados às escolhas alimentares, incluindo saúde, conteúdo natural dos alimentos e preocupação ética. [8]

A preocupação ética investigada incluía aspectos relacionados à origem dos alimentos e às consequências ambientais das escolhas alimentares. [8]

Essas pesquisas, juntas, ajudam a construir uma reflexão importante:

Quanto mais conseguimos enxergar a relação entre aquilo que comemos e os sistemas naturais que tornam nossa alimentação possível, maior pode ser a oportunidade de desenvolver escolhas mais conscientes. E talvez essa percepção também possa contribuir para que a comida seja mais valorizada e menos desperdiçada.


♻️ DA REFLEXÃO À AÇÃO: SEMANA DA ALIMENTAÇÃO RS NA REDENÇÃO


Se os números mostram a dimensão do desperdício e a ciência nos ajuda a compreender a relação entre alimentação, natureza e sustentabilidade, a educação pode transformar conhecimento em prática. É essa a proposta das atividades que o Banco de Alimentos RS, o Curso de Nutrição da Unisinos e o Movimento Lixo Zero levam ao Parque da Redenção, em Porto Alegre, no domingo, 18 de outubro.

Realizada de 12 a 18 de outubro em todo o Rio Grande do Sul, a 24ª Semana da Alimentação RS tem como tema “Inove hoje para nutrir o amanhã”, alinhado à proposta da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO). A edição convida a discutir caminhos para garantir o acesso de todas as pessoas a alimentos seguros, acessíveis e nutritivos, com atenção à sustentabilidade dos sistemas alimentares e ao direito humano à alimentação e à nutrição adequadas.

Na Praça de Segurança Alimentar, montada no Parque Farroupilha (Redenção), a parceria entre o Banco de Alimentos RS e a Unisinos, já tradicional no evento, aproxima o conhecimento em Nutrição da solidariedade e da valorização dos alimentos. Neste ano, o Movimento Lixo Zero se soma à iniciativa e conecta o tema aos princípios da economia circular: consumo responsável, separação correta dos resíduos, reciclagem dos materiais recicláveis e compostagem dos resíduos orgânicos.

O que o público vai encontrar:

🍌 “Agora vamos salvar os alimentos!” – a partir de imagens e alimentos cenográficos, como bananas maduras, cascas de batata e de laranja, o público reflete sobre o que realmente precisa ir para o lixo e conhece receitas e preparações que evitam o desperdício, sempre respeitando as condições de segurança e qualidade dos alimentos.

♻️ Mesa de Práticas Sustentáveis – orientações sobre separação de resíduos, reciclagem, compostagem, redução do desperdício e reaproveitamento, ajudando a distinguir o alimento que ainda pode ser consumido com segurança daquilo que precisa receber uma destinação adequada.

🐟 “Salve o Peixe” – para as crianças: em um mar cenográfico, elas “pescam” resíduos e descobrem, brincando, como o descarte inadequado afeta os oceanos e a vida marinha, e por que separar e reciclar faz diferença.

A ligação com os números apresentados neste texto é direta: se 60% do desperdício mundial de alimentos acontece dentro de casa [1], cada família que aprende a planejar as compras, aproveitar melhor os alimentos e separar corretamente seus resíduos passa a fazer parte da solução. As atividades são uma oportunidade para conversar, aprender, brincar e descobrir que pequenas mudanças podem fazer parte de uma transformação muito maior.

📅 Domingo, 18 de outubro de 2026⏰ 10h às 14h📍 Praça de Segurança Alimentar – Parque Farroupilha (Redenção), Porto Alegre🤝 Banco de Alimentos RS, Curso de Nutrição da Unisinos e Movimento Lixo Zero

Traga a família, venha aprender e, principalmente, venha olhar de outro jeito para aquilo que comemos e para aquilo que descartamos.

Porque reduzir o desperdício é cuidar da comida, das pessoas e da natureza. 



Referências

[1] UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME (UNEP). Food Waste Index Report 2024. Nairobi: UNEP, 2024.

[2] UNITED NATIONS ENVIRONMENT PROGRAMME (UNEP). Food Waste Index Report 2024 – Key Messages. Nairobi: UNEP, 2024.

[3] PACTO CONTRA A FOME. Entenda o desperdício de alimentos. São Paulo: Pacto Contra a Fome.

[4] PACTO CONTRA A FOME. Desperdício de alimentos no Brasil: saiba suas causas e impactos. São Paulo: Pacto Contra a Fome.

[5] RIO GRANDE DO SUL. Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura (SEMA/RS). Resíduos Sólidos. Porto Alegre: SEMA/RS. Inclui o Relatório Técnico de Levantamento da Capacidade Instalada de Reciclagem de Resíduos Orgânicos Urbanos no Rio Grande do Sul, 2026.

[6] STOTT, Dahlia et al. The connections among interactions with nature, diet quality, and sustainable eating: Insights from a mixed methods study. Social Science & Medicine, v. 393, 2026, 119014. DOI: 10.1016/j.socscimed.2026.119014.

[7] NG, Shu Tian; LEUNG, Angela K.-y. Cultivating Sustainability: How Modern Food Practices Shape Pro-Environmental Motivation Through Food–Nature Associations. Sustainable Development, 2026. DOI: 10.1002/sd.71392.

[8] BRUNO, Vânia Hercília Talarico et al. Conexão com a natureza e associação com motivos de escolhas alimentares entre profissionais da atenção primária à saúde. Ciência & Saúde Coletiva, v. 26, n. 4, p. 1323–1332, 2021. DOI: 10.1590/1413-81232021264.08562019.


 
 
 

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